o poder do agro em MT

Quem manda na economia de Mato Grosso?

Os grupos que concentram terra, capital, indústria e influência

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Por trás da imagem de um Estado movido por soja, milho, algodão e carne existe uma estrutura econômica cada vez mais concentrada em grandes grupos empresariais. Eles controlam ou influenciam cadeias inteiras, da produção rural à comercialização, da indústria à logística, do crédito à energia e ocupam um espaço relevante nas discussões sobre os rumos de Mato Grosso.

Não se trata de dizer que poucas empresas “mandam” formalmente no Estado. A expressão ajuda, porém, a entender uma questão cada vez mais importante: quem tem capital suficiente para decidir onde investir, quais cadeias produtivas serão ampliadas e quais temas econômicos chegam com mais força à mesa do poder público?

Um levantamento da Econodata, atualizado em junho de 2026, coloca entre as maiores empresas de Mato Grosso por faturamento nomes como Amaggi, Inpasa, Agrícola Alvorada, FS e Energisa, além de holdings e instituições financeiras. A própria plataforma ressalva que o ranking utiliza dados públicos e estimativas e, portanto, não deve ser tratado como uma classificação oficial de faturamento. Outro levantamento, baseado em capital social declarado e dados da Receita Federal, coloca entre os maiores grupos registrados no Estado empresas como JOL Investimentos, Inpasa, André Maggi Participações, BF Participações e Amaggi. Capital social, porém, não é sinônimo de faturamento, patrimônio ou poder econômico, e essa diferença é fundamental para qualquer análise séria.

Amaggi: da soja à logística, energia e biocombustíveis

História - Amaggi
Foto: divulgação

Poucos nomes simbolizam tão claramente a transformação econômica de Mato Grosso quanto a Amaggi. Com sede em Cuiabá e origem ligada à produção agrícola, o grupo expandiu sua atuação para comercialização de commodities, logística, energia e outras áreas da cadeia do agronegócio. Em julho deste ano, a companhia concluiu a aquisição de uma participação de 40% da FS, uma das principais produtoras brasileiras de etanol de milho. A operação envolveu aporte de US$ 100 milhões. O movimento é importante porque revela uma mudança na lógica do agronegócio estadual: não basta mais produzir o grão; o capital procura controlar também etapas posteriores da cadeia.

A aproximação entre produção agrícola, indústria e energia transforma milho e soja em muito mais do que commodities. Eles passam a alimentar usinas, gerar biocombustíveis, energia elétrica, proteína animal e produtos industriais.

A Amaggi também carrega uma dimensão política histórica. Blairo Maggi, um dos controladores do grupo, foi governador de Mato Grosso, senador e ministro da Agricultura. Em julho de 2026, afirmou que não pretende retornar à política e que decidiu concentrar-se nos negócios da família. Isso não significa que a empresa exerça controle político sobre o Estado. Significa, porém, que economia e política mato-grossenses historicamente se cruzam em torno de grandes lideranças empresariais.

Bom Futuro: quando terra também é poder econômico

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Outro exemplo é o Grupo Bom Futuro, ligado aos irmãos Eraí, Elusmar e Fernando Maggi Scheffer.

O grupo se consolidou principalmente na produção agrícola e investiu também em armazenagem, tecnologia e outras atividades ligadas ao campo. A própria empresa destaca que sua expansão esteve acompanhada por investimentos em tecnologia, pesquisa e infraestrutura de armazenagem. Em junho de 2026, o grupo esteve no centro de uma das maiores disputas recentes envolvendo terras agrícolas em Mato Grosso.

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A Bom Futuro apresentou uma oferta de R$ 1,85 bilhão por cerca de 41,2 mil hectares do chamado Bloco Mato Grosso da Radar, operação que também envolveu a SLC Agrícola. A disputa colocou em evidência o valor estratégico das terras produtivas no Estado. O episódio mostra outra dimensão do poder econômico: quem controla grandes extensões de terra não controla apenas produção agrícola. Controla ativos que podem se valorizar, gerar renda, servir de garantia para crédito e determinar a expansão territorial de determinadas cadeias produtivas.

Eraí Maggi também tem presença ativa no debate público. Em 2026, participou de discussões sobre industrialização, infraestrutura e eleições estaduais e declarou apoio a Otaviano Pivetta. Novamente, influência não significa comando. Mas a capacidade de um grande empresário participar publicamente da discussão sobre políticas de desenvolvimento, obras e eleições revela como o poder econômico também pode se transformar em poder de agenda.

Inpasa: o novo poder industrial

Inpasa Nova Mutum - MT
foto: divulgação: Inpasa Nova Mutum MT

Se a velha imagem de Mato Grosso era a de um Estado que produzia grãos para exportação, a expansão da Inpasa representa uma mudança importante.

A empresa está transformando milho em etanol, DDGS, óleo vegetal e energia e ampliando rapidamente sua presença no Estado.

Em 2025, a companhia registrou receita bruta de aproximadamente R$ 14,9 bilhões e anunciou R$ 4,9 bilhões em investimentos, segundo seu relatório de sustentabilidade. Para Mato Grosso, porém, talvez mais importante que o faturamento seja o efeito sobre a cadeia produtiva.

Em Rondonópolis, a Inpasa está construindo uma nova biorrefinaria com investimento de aproximadamente R$ 2,77 bilhões. A previsão é de cerca de 2.500 empregos durante as obras e 400 postos permanentes na operação. A empresa também está ampliando a unidade de Nova Mutum.

O resultado é uma mudança estrutural: parte do milho que antes deixava Mato Grosso como matéria-prima passa a ser processada dentro do próprio Estado.

Isso cria uma nova disputa econômica: quem terá mais poder na próxima década — o produtor de grãos, a indústria que transforma o grão ou as empresas que controlam a logística e a comercialização?

O poder também está fora das fazendas

Foto: divulgação – colheita algodão Bom Futuro

Seria um erro, contudo, reduzir o mapa econômico de Mato Grosso aos grandes produtores rurais.

Bancos, cooperativas de crédito, tradings, concessionárias de rodovias, empresas de energia, frigoríficos, indústrias e entidades empresariais também participam da formação desse poder.

É justamente por isso que instituições como Famato, Fiemt e Fecomércio-MT ocupam espaço estratégico no debate público.

Em março de 2026, as três entidades que formam a chamada Aliança do Setor Produtivo de Mato Grosso se reuniram com deputados federais e senadores do Estado para apresentar estudos e posicionamentos sobre a proposta de mudança da jornada de trabalho. Na indústria, a Fiemt mantém conselhos temáticos e câmaras técnicas voltados à formulação de propostas e à articulação com diferentes setores.Esse é um ponto essencial, o poder econômico não está somente no dono da empresa. Está também nas instituições capazes de organizar interesses empresariais e transformá-los em pressão política.

O presidente da Fecomércio-MT, Sebastião Gonçalves dos Reis, o Tião da Zaeli, avalia que o agronegócio é a base do desenvolvimento econômico de Mato Grosso e, cada vez mais, atua como indutor de crescimento em outros setores, como comércio, serviços e turismo. “O agronegócio é o motor, mas Mato Grosso apresenta muitas outras oportunidades, tanto no comércio quanto na área de serviços. Entre elas, estão segmentos como consultoria em gestão empresarial e o turismo, que ainda tem um grande potencial de crescimento e já vem atraindo investimentos significativos”, destacou.

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O novo mapa do poder

O cenário atual permite identificar pelo menos cinco grandes núcleos de influência econômica em Mato Grosso:

  1. Grandes produtores e proprietários de terras
    Grupos como Bom Futuro representam o poder associado à escala de produção, ao patrimônio fundiário e ao controle de ativos agrícolas.
  2. Tradings e comercializadoras
    Empresas que compram, armazenam, financiam, transportam e vendem commodities conectam o produtor mato-grossense ao mercado internacional.
  3. Agroindústria e bioenergia
    Empresas como Inpasa e FS representam a nova etapa da economia estadual: transformar milho e outros produtos agrícolas em energia, proteína e insumos industriais.
  4. Logística e infraestrutura
    Rodovias, ferrovias, terminais e armazenagem determinam quanto custa retirar a produção de Mato Grosso e quanto sobra no bolso de quem produz.
  5. Sistema financeiro e entidades empresariais
    Bancos, cooperativas de crédito e organizações como Famato, Fiemt e Fecomércio influenciam o acesso ao capital e a formulação de políticas públicas.

O que muda para a população?

Essa talvez seja a pergunta mais importante.

Mato Grosso cresce, atrai bilhões em investimentos e amplia sua capacidade industrial. Mas crescimento econômico não significa automaticamente distribuição de riqueza.

O desafio é descobrir quantos empregos permanentes os grandes investimentos realmente criam, quanto de imposto fica nos municípios, quanto da riqueza permanece no Estado e quanto é remetido para acionistas e investidores de fora.

Também é preciso acompanhar outro fenômeno: a concentração.

Quanto maior a escala das empresas, maior pode ser sua capacidade de comprar terras, contratar crédito, negociar insumos, construir infraestrutura própria e disputar mercados.

Ao mesmo tempo, pequenas e médias empresas precisam encontrar espaço nessa transformação.

Um programa lançado em 2026 pelo Sebrae-MT e pela Fiemt prevê R$ 27 milhões para desenvolvimento de micro e pequenas indústrias. A iniciativa mostra que existe uma preocupação em fazer a industrialização alcançar empresas menores.

A pergunta que fica

Mato Grosso está deixando de ser apenas uma potência agrícola e se transformando em uma potência agroindustrial.

A questão é quem estará no comando dessa nova fase.

Os grandes produtores continuarão ampliando suas terras? As indústrias passarão a capturar uma parcela maior do valor produzido? Bancos e cooperativas terão papel ainda maior no financiamento? As tradings continuarão dominando a conexão com o mercado internacional? Ou surgirão novos grupos capazes de desafiar as empresas tradicionais?

O Estado já tem uma resposta parcial.

Os investimentos bilionários da Amaggi, Bom Futuro, Inpasa e de outros grupos mostram que existe capital disposto a apostar no futuro de Mato Grosso.

Mas a resposta definitiva depende de uma investigação ainda maior: mapear quem controla cada etapa da cadeia — da terra ao porto, do crédito ao combustível, do grão à exportação — e cruzar essa estrutura com as decisões tomadas pelo poder público.

É nesse cruzamento entre capital, terra, infraestrutura e política que estará o verdadeiro mapa do poder econômico de Mato Grosso.

 

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