Há livros que se limitam a narrar acontecimentos. Outros, mais densos, realizam um gesto mais amplo: restituem ao leitor um território inteiro — com suas vozes, suas sombras, suas crenças e uma memória ainda em combustão. Pedra Canga, de Teresa Albues, inscreve-se nesse segundo campo. Não se trata apenas de uma história que se acompanha; é uma experiência que se percorre.No povoado que dá nome ao romance, a narrativa se organiza em torno da família Vergare, figuração do poder concentrado e da riqueza erguida sobre a espoliação. Mas o eixo da opressão não esgota o enredo; ao seu redor, forma-se uma constelação de personagens que sustenta a respiração do romance e amplia seus sentidos.É nesse tecido humano que surge Zé Garbas, figura contraditória e intensamente viva, alternando a irreverência desbocada — de viola de cocho em punho, expondo hipocrisias — com um inconformismo latente que apenas se consuma ao final, quando decide partir com os ciganos. Em contraste e, ao mesmo tempo, em diálogo com essa energia inquieta, Marcola se impõe como presença de escuta funda e orientação silenciosa: mulher de guia, quase iniciática, que transita entre planos e lê o mundo para além da superfície, conduzindo os outros por entre mistério e revelação.Já Crescência encarna a dimensão mais dura da violência social e afetiva: arrancada de seu lugar, submetida ao desejo e ao mando e devolvida à senzala, consome-se no desgaste de uma existência que nunca lhe pertenceu. Essa linha de brutalidade encontra seu ápice em Nastácio, que prolonga a tragédia em grau extremo ao viver como escravo do próprio pai, sem jamais conhecer sua origem — como se a crueldade pudesse perpetuar-se no tempo, anônima, sem nome e sem reparação.E há ainda os garotos de Pedra Canga — Zigmundo, Capacete de Aço, Miguelito, João Gonçalo, Chico, Leão Manso, Evilázio, Zelito —, meninos de pobreza crua, criados ao deus-dará, unidos pela fome, pela astúcia e por uma lealdade silenciosa. Viviam em barracos de adobe, entre pouca comida e nenhum conforto, aprendendo cedo a se virar por conta própria. Para eles, a Chácara do Mangueiral não era apenas um pomar: era o escândalo de uma fartura interditada. As frutas amadureciam, caíam e apodreciam sem serem tocadas, enquanto o povo carecia do básico.Diante disso, organizavam expedições quase militares, guiadas por planos improvisados e coragem infantil, para invadir o território proibido. O que encontravam, quase sempre, era o modo como a propriedade se fazia ouvir: tiros de sal grosso, disparados não apenas contra corpos pequenos, mas também contra a própria ousadia de desejar. Ainda assim, insistiam. E, mais adiante, quando a chácara se revela vazia e as frutas podem enfim ser colhidas sem perseguição, a cena adquire valor de desforra simbólica: não é apenas um punhado de meninos exibindo mangas, goiabas e pitombas com orgulho, mas a própria Pedra Canga experimentando, por um instante, o gosto tardio de uma reparação.Desde cedo, percebe-se que o romance não se contenta em expor conflitos sociais; há nele um movimento de escavação — da memória, das marcas deixadas pelo tempo, das histórias que persistem mesmo quando silenciadas. O passado não se apresenta como matéria distante: retorna, impõe-se e reintegra-se com tal intensidade que parece reassumir sua presença “em toda a sua força”.Nesse universo, o sobrenatural não comparece como adorno nem como ruptura da lógica narrativa; constitui, antes, uma forma de apreensão do mundo. Marcola, figura central nesse aspecto, não distingue radicalmente o visível do invisível: transita entre ambos com naturalidade, escuta seus guias e reconhece forças que não se deixam reduzir à explicação imediata. Quando insinua que sonho e recado podem ser uma só coisa, desarma a oposição convencional entre realidade e imaginação. O que se revela ali é uma ampliação do real — não sua negação.A própria terra guarda memória. A casa dos Vergare não é apenas construção, mas concentração de mando, violência e permanência; por isso, sua queda não poderia ocorrer sem resistência. Há uma luta que se prolonga na noite, forças que se recusam a abandonar o lugar, como se o mal ali sedimentado exigisse enfrentamento para se dissipar. Quando, enfim, se desfaz, não se trata apenas da ruína de uma estrutura, mas da dissolução de um poder que insistia em permanecer inscrito no espaço.Ainda assim, o romance não se encerra na devastação. Há, ao final, uma abertura para a celebração. O povo reunido, a luz que resplandece, a música que percorre a noite, o encontro entre Maria dos Anjos e Antônio — tudo sugere uma forma de restituição. E, na imagem do barco que desliza sobre as águas, delineia-se uma travessia que é, ao mesmo tempo, concreta e simbólica: algo foi superado, ainda que não inteiramente apagado.Nada disso alcançaria tal densidade sem a linguagem que sustenta a obra. Teresa Albues constrói um texto de aparência simples, mas de elaboração rigorosa, no qual a oralidade do interior mato-grossense não funciona como recurso decorativo, mas como estrutura viva da narrativa. Ali, o mundo se organiza em torno de gestos e objetos carregados de memória: o guaraná partilhado como rito de aproximação, a viola de cocho ressoando entre o deboche e a denúncia, o cigarro de palha aceso em conversas que misturam conselho, desabafo e revelação.As palavras — “acocorada”, “desgrenhada”, “cismando”, “ressabiado” — não apenas nomeiam, mas encarnam modos de vida. Dessa matéria aparentemente comum emerge uma escrita que, sem alarde, alcança momentos de forte condensação poética, nos quais a frase se transforma em pensamento, e o pensamento permanece como experiência.A natureza participa ativamente dessa construção. O rio não é cenário: é caminho, é passagem, é linguagem. As cores parecem ganhar som, o vento carrega sinais e a água reorganiza o mundo. Tudo vibra numa lógica que ultrapassa a percepção imediata, aproximando matéria e espírito numa mesma corrente.Essa articulação entre o particular e o amplo constitui uma das maiores virtudes do romance. Ao fincar raízes profundas em Mato Grosso — em sua fala, seus costumes, suas formas de vida —, a obra alcança uma dimensão que ultrapassa o local. O que ali se narra — a pobreza que une, a exploração que estrutura, a resistência que persiste — reverbera para além de qualquer geografia.Ler Pedra Canga, nesse sentido, é um gesto de aproximação com uma literatura que nasce da terra e da memória sem abrir mão de complexidade. É encontrar um Mato Grosso que não se reduz a paisagem, mas se afirma como experiência humana densa, marcada por conflitos, crenças e permanências.E, ao final desse percurso, permanece uma espécie de ensinamento discreto, quase sussurrado: diante da vastidão do caminho, não é o rio que decide o destino — é a mão que segura o remo.*Márcio Florestan Berestinas é promotor de Justiça no Ministério Público do Estado de Mato Grosso.
Fonte: Ministério Público MT – MT
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